Antônio Carlos Quinto
No início do século 20, estudiosos, técnicos e autoridades de São Paulo já alertavam sobre a degradação do rio Tietê. "Os `fiscais de rios`, funcionários da prefeitura na época, constatavam em seus relatórios a poluição crescente", conta o historiador Janes Jorge. Apesar de ver como positivas as iniciativas que envolvem a recuperação do rio, o pesquisador sente a falta de maior conscientização e participação da população paulistana nos projetos governamentais. "Aquele Tietê nunca mais voltará", lamenta Jorge.
Nascido em Vila Maria, bairro da Zona Norte de São Paulo e um dos primeiros a serem implantados às margens do Tietê, o historiador sempre ouviu narrativas de parentes e pessoas que chegaram a nadar e pescar no rio. "A partir daí, me interessei em estudar a relação da população com o Tietê na época em que a cidade iniciou seu processo de metropolização", descreve.
Esta foi uma das principais motivações que levaram Jorge a elaborar sua tese de doutorado O rio que a cidade perdeu: o Tietê e os moradores de São Paulo (1890-1940), apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
Em fins do século 19, São Paulo iniciou uma grande intervenção em seu território para abrigar a nova cidade que surgia, o que implicava na transformação dos rios e várzeas. Um estudo da Repartição de Águas e Esgotos (RAE), feito durante o período de estiagem de 1933, indicava o efeito destruídor da poluição crescente. Logo depois da Ponte Grande e da confluência com o rio Tamanduateí, até um pouco além do encontro com rio Pinheiros, as taxas de oxigenação das águas do Tietê decresciam brutalmente. Dali até as proximidades da cidade de Pirapora, mantinham-se em sua maior parte no zero, ou próximo a ele, o que era devastador para os peixes. "As águas só começavam a melhorar após a represa de Santana do Parnaíba", descreve Jorge. Os relatórios dos fiscais de rios denunciavam a pesca predatória, até mesmo com o uso de dinamite.
Pobres mais atingidos
O processo de degradação do Tietê atingiu principalmente a população mais pobre da cidade. Aquelas pessoas, segundo o historiador, buscavam no rio e em suas várzeas o que lhes faltava: alimentação, lazer e mesmo trabalho, como no caso dos barqueiros, que transportavam principalmente cargas das olarias e das chácaras localizadas às margens do rio. "Havia também a retirada do cascalho e da areia, usados na construção civil da época", conta Jorge.
Em relação ao lazer, o historiador lembra que era comum a prática do remo e da natação no Tietê. Quando as águas ficaram impróprias, os mais ricos, que também tinham seus momentos de lazer no rio, passaram a freqüentar os clubes fechados e suas piscinas, a represa do Guarapiranga ou do rio Grande. "Além de prejudicar o lazer, a poluição disseminava entre a população pobre, que tinha contato direto ou indireto com o Tietê, doenças de veiculação hídrica", descreve Jorge.
O pesquisador aponta ainda como uma das grandes causadoras da destruição do Tietê e de seus afluentes, a ação da Light, empresa canadense/anglo-americana responsável pelo sistema hidrelétrico que foi implantado na cidade. "A Light progressivamente afastou o poder público da administração efetiva dos rios paulistanos, o que aumentou os efeitos destrutivos da urbanização sobre os rios."
Para elaborar sua pesquisa, Jorge utilizou as pesquisas sobre da cidade de São Paulo e fontes diversas, como estudos técnicos, relatórios de prefeitos e memórias, entre outros.
Mais informações: (0X11) 8301-7539, com o historiador Janes Jorge; e-mail: jjanesjj@yahoo.com.br
Imagem: Marcos Santos
Data: 21/06/2005
Fonte: Agência Usp de Notícias