O Brasil deve o início da pesquisa agrícola a Nelson Rockefeller. Nos anos 50, ele passou a desenvolver, em fazendas adquiridas em São Paulo, o milho híbrido, trazendo para cá uma experiência iniciada nos Estados Unidos nos anos 30. Essas pesquisas se desdobraram, depois, na criação da Agroceres e na evolução da Embrapa, que se tornou um dos maiores centros de pesquisa do mundo. Os avanços obtidos pelo milho híbrido permitiram ao País ganhos substanciais.
No caso dos transgênicos, em 1997 foram plantados 3,6 milhões de hectares nos Estados Unidos, número que chegou a 25 milhões de hectares em 2000. Na Argentina, a área plantada de transgênicos saltou de 1,4 milhão de hectares, em 1997, para mais de 6 milhões três anos depois.
Estudo divulgado em 1999 pelo Instituto de Economia Agrícola – Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa Agropecuária (Fundepag) – constatou acréscimo de 5% a 14% de rentabilidade em alguns Estados brasileiros em decorrência de uma maior produção e de menores custos com insumos. As três principais culturas-alvo dos transgênicos são o milho, o algodão e a soja.
O ganho de produtividade existe porque essas variedades são mais resistentes a pragas, demandando menor quantidade de insumos químicos e defensivos agrícolas, o que resulta em menor perda de produção.
A soja é o produto agrícola mais importante em termos de contribuição de renda ao agricultor, ao PIB e às exportações. Em 2000, o Brasil produziu quase 32 milhões de toneladas do grão, dos quais cerca de 22 milhões foram exportados, gerando por volta de US$ 4,2 bilhões ao País.
Um dos argumentos econômicos contra a soja transgênica é o da possibilidade da criação de um mercado de soja tradicional com cotação superior, por conta da resistência da União Européia às espécies geneticamente modificadas. Mas até agora esse mercado não existe. O Brasil não consegue um centavo a mais por sua soja não modificada.
Em contrapartida, estudo recente do caso argentino demonstra que, na soma final, os ganhos dos produtores que usam transgênicos podem ser expressivos. Recentemente o pesquisador Eduardo Trigo, diretor do grupo CEO, apresentou um balanço parcial de seis anos de implantação dos transgênicos em seu país, um exemplo relevante para analisar os impactos econômicos da pesquisa na produção agrícola.
A trajetória de implantação é bem atual. Começou em 1996, com a soja tolerante ao glifosato (RR), seguindo em 1998 com o milho e o algodão resistentes a lagartas. As novas modalidades de soja permitiram redução de US$ 20 a US$ 25 por hectare nos custos de produção. A expansão da área agrícola foi de 4,6 milhões de hectares e permitiu ao país saltos expressivos nas exportações.
Trigo dividiu seu estudo em quatro tipos de ganhos. No caso dos agricultores, ganhos com a redução de custo e o aumento de produção. No caso dos provedores de insumos, ganhos com vendas de glifosato e de sementes. Os benefícios evoluíram de US$ 124,91 milhões, em 1996, para US$ 1,6 bilhão em 2002.
Estudos mais aprofundados deverão ser realizados para analisar a eficácia do uso dos transgênicos no tempo. De qualquer forma, o mundo já entrou em nova etapa, na qual as pesquisas tecnológicas passam a desempenhar papel essencial, tanto para subsidiar políticas agrícolas quanto para preparar a agricultura brasileira para não perder seu espaço atual.
Na opinião de Marcos Jank, engenheiro agrônomo formado pela Esalq-USP, para prosseguir ocupando espaço no cenário internacional de commodities agrícolas, o Brasil não pode abrir mão da biotecnologia. Jank explica que, atualmente, o setor de agronegócio praticamente não enfrenta barreiras, e todo o mundo mantém a competição em escala global. “Na minha opinião, ocorrerá com os transgênicos o mesmo que aconteceu com o café, as frutas e os vinhos”, diz Jank, assinalando que será inevitável a identificação de uma série de níveis de qualidade, denominações de origem e tipos de rotulagem. E acrescenta: “A biotecnologia será mais importante ainda quando mexer com aspectos nutricionais dos alimentos”.
Outro pesquisador da USP, Fernando Homem de Melo, acentua que a biotecnologia pode ser comparada à Revolução Verde dos anos 60 e 70, com o desenvolvimento da tecnologia genética de sementes híbridas, sobretudo nos EUA, e à tecnologia dos cerrados, criada pela Embrapa, que permitiu a implantação de milhões de hectares cultivados no País.
Data: 03/12/2003
Fonte: CIB