Uma substância extraída do feijão poderá aumentar as chances de sucesso dos transplantes de medula óssea. Estudo realizado no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP mostrou a eficiência da fitohemaglutinina (PHA), proteína encontrada em alguns tipos de feijão, na separação de linfócitos do material a ser enxertado no paciente, o que reduziria as chances de rejeição no organismo após o procedimento. A técnica foi descrita na dissertação de mestrado de Glaucia Maria Ribeiro de Souza.
A pesquisadora explica que os pacientes submetidos a transplantes de medula alogênicos (com familiares sadios) estão sujeitos a "Doença do Enxerto Versus Hospedeiro" (GVHD). "Com o procedimento, além das células necessárias ao doente, conhecidas como `stem-cell´, também são enxertados linfócitos, que podem reconhecer o organismo como um corpo estranho, provocando rejeição", relata. "Por isso são necessárias técnicas que permitam retirar os linfócitos antes do procedimento, mesmo que haja compatibilidade do organismo com as `stem-cell` que serão transplantadas."
O estudo utilizou amostras de sangue de dez pacientes submetidos ao transplante autólogo de medula (feito com sangue extraído do próprio doente, enxertado após tratamento) na Santa Casa de São Paulo. A pesquisadora testou a capacidade de aglutinação de linfócitos de três diferentes tipos de PHA, encontrados no feijão preto e no feijão vermelho. "Os melhores resultados foram obtidos com a fração L da fitohemaglutinina do feijão vermelho, que apresentou mais afinidade com os linfócitos", afirma Gláucia. "As frações são obtidas com a purificação do PHA, apresentando resultados diferenciados, como a fração E, descrita na literatura científica, que atua nos glóbulos vermelhos do sangue .
Separação
Segundo a pesquisadora, a separação dos linfócitos é feita atualmente por um aparelho chamado Magnet Cell Sort (Separador Magnético de Células), que consegue retirar 99% dos linfócitos presentes no material a ser transplantado. "Apesar da eficiência, esta técnica é muito cara para os padrões do sistema público de saúde no Brasil", aponta. "O uso de drogas a base de PHA poderia baratear os custos da separação de células para uso em transplantes de medula."
Gláucia relata que apesar do PHA reter menos linfócitos que o Separador Magnético (cerca de 80%), a diferença pode se tornar uma vantagem após o transplante. "Os linfócitos restantes irão provocar GVL, uma doença que serve para estimular o funcionamento da medula transplantada", explica. Segundo a pesquisadora, a lecitina de soja também pode ser utilizada na separação dos linfócitos, apresentando índices de retenção próximos a 90%. "O problema é que a lecitina precisa estar associada a outras substâncias para promover tais resultados, o que pode aumentar os riscos de contaminação da amostra."
De acordo com Gláucia Maria de Souza, o uso do PHA nos procedimentos do transplante de medula dependerá de testes que mostrem sua eficiência em outros tipos de enxerto. "Seria necessário medir o desempenho da fitohemaglutinina nos procedimentos alogênicos com doadores sadios", explica a pesquisadora. "A técnica a ser usada para separação dos linfócitos depende do estudo específico de cada paciente", ressalta.
Data: 09/12/2003
Fonte: Agência USP de Notícias